Domingo, 10 de Maio de 2009

Depois da primeira parte e do video que pus há dias, aqui está a segunda parte dos meus pensamentos escritos sobre a Faculdade de Filosofia y Letras da UAM.

A caminhar a passos largos para o fim esta minha experiência de Erasmus, já cheguei ao ponto dos costumes e dos hábitos. Quando isso acontece, deixamos de pensar tanto naquilo que fazemos e passamos a pensar mais no que os outros fazem.

As aulas têm sido talvez a maior surpresa de todas.

Nos primeiros dias estamos ainda nas apresentações e introduções, portanto é comum a primeira aula, propriamente dita, é na realidade a segunda. Até aqui tudo bem, tenho já 17 anos de casa para saber como as coisas funcionam, o problema é o método como tudo ocorre, ora atentem:

Estou a caminho da Faculdade, 'tou a 5min de distância a pé desde a Residência, mas é o primeiro dia e sem saber como as coisas funcionam adianto-me uns bons 15min antes do inicio da aula, marcado para as 10 horas.

A porta da sala já está aberta, está um grupo cá fora à espera da Prof. outro encontro-o já dentro da sala. Sento-me a meio caminho do quadro, vai ser a minha primeira aula em castellano pior será se não ouvir a senhora a falar.

Quando chega, a multidão dentro e fora se agrupa nas cadeiras, o som aumenta a um ponto que me estranha e espanta. Reparem, venho de uma Faculdade onde as aulas raramente ultrapassam as duas dezenas de alunos e quando o Prof. entra, normalmente, respeitamos o "protocolo" do silêncio. Mas eu estava numa realidade diferente...

Faço as contas, «Devemos estar 50 aqui dentro...», o protocolo esse basicamente não existia. As apresentações são feitas assim como a entrega de trabalhos. Chegava a hora de começar a aula...

«Bom, ainda temos algum tempo, que dizem começarmos com a matéria?» - Por um momento, cri que seria diferente do habitual, a primeira aula seria de facto a primeira...

Do nada, uma vaia inrrompe pela sala. Mas quando digo uma vaia não é «Eh má onda!». Não! É mesmo uma «EHHHHHUUUHHH». Se fosse necessário uma prova de que somos gente de brandos costumes, ali estava. Nunca em tempo algum pensaria que assistiria a uma vaia numa Faculdade, «Só em Espanha» pensei...Mas a resposta da Prof. conseguiu surpreender-me mais:

«Pronto, pronto. Vocês é que sabem, para mi me dá igual !». Um sorriso sincero e um até amanhã foram suficientes para a debandada consequente. Missão cumprida. Primeira aula passava a segunda.

Hoje, coisas como estas tornaram-se vulgares. Junto a isto temos: tratar o Profs. por Tu ou perguntarem a nós se vamos às aulas no dia seguinte porque vai ser dia de greve de alunos.  Banalidades para uns, luxos para outros...

Hoje, começo então a reparar nas pequenas coisas. À frente do lugar onde me sento nesta aula de que falei, tenho sempre o mesmo rapaz. Até aqui tudo porreiro, é um rapaz de costumes, o problema é que me encontro sempre a fazer mesma pergunta a mim mesmo: «Que cara*** estás tu aqui a fazer homem?». Então não é que a personagem não faz nada na aula? Apenas se senta, posa o caderno fechado, cruza os braços, olha para o quadro e finaliza o seu pseudo-catatonismo com o conhecido e irritante, ligeiro e sucessivo, bater de perna. Uma hora disto! Até que acaba a aula e o homem, como influído de uma velocidade que faria inveja a Usain Bolt, saí disparado da sala.

Para fazer? Puxar do belo do cigarro pois claro...

Outro pormenor engraçado das aulas é o seguinte. Ao contrário das salas da minha Faculdade em Portugal, aqui as portas estão no extremo oposto ao quadro. Resultado, o aluno apenas ouve o som da porta a abrir e a fechar atrás de si, sem poder desvendar "O Caso do Misterioso Atardado(a)".

A reacção a este desconhecimento, a esta ansia de revelar a identidade da pessoa, é tal que uma reacção automática surge assim que fechamos a porta: dezenas de caras viram-se para nós! Durante 8 segundos sentimo-nos no meio de um palco, com os holofotes apontados e a única coisa que nos ocorre fazer é apresarmo-nos à cadeira mais perto, ao mesmo tempo que pensamos: «Para a próxima vou fechar o raio da porta sem barulho...».

Assim pensei e assim fiz.

Até amanhã


sinto-me na faculdade

vulgarizado por João às 11:46 | link da posta | explanar | ajuntar aos favoritos

Há um mito, em forma de graça, que alega que um espanhol apenas vai a Portugal para comprar toalhas. Este é um relato da estadia de um Estudante de Arqueologia em Erasmus em Espanha, e suposto produtor de toalhas.
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